Defender a preservação das nascentes é defender uma visão de mundo em que a cidade pode aprender a viver em harmonia com os recursos hídricos, sem ter que tirar a água do cenário urbano, tornando os rios invisíveis por meio da canalização e impermeabilização do solo”. Essa foi a síntese do discurso do presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas (CBH Rio das Velhas), Marcus Vinícius Polignano, durante a abertura do Simpósio da Bacia Hidrográfica do Ribeirão Onça, realizado dia 5 de abril (2018) no auditório do CAD 2, Universidade Federal de Minas Gerais, das 14 às 21:30, com o tema “Nascentes urbanas e o caminho das águas”. A necessidade da valorização das nascentes e cursos d´água por parte de todos os setores da sociedade também foi destacada nas demais falas de abertura do evento, respectivamente,  pelo coordenador do Subcomitê da Bacia Hidrográfica do Ribeirão Onça (SCBH Ribeirão Onça), Eric Machado, e pelo professor e ex-coordenador do SCBH Ribeirão Onça, Márcio Lima.

Em seguida, o presidente do CBH Rio das Velhas, Marcus Vinícius Polignano, conduziu uma mesa redonda que contou com as participações do assessor da Diretoria de Operação Metropolitana da Copasa, Rogério Sepúlveda; do também diretor de Planejamento Ambiental da Prefeitura de Contagem, Eric Machado; o gerente de Gestão de Águas Urbanas da Secretaria de Obras da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), Ricardo Aroeira; e o presidente do Conselho de Venda Nova, Ricardo Andrade. O tema abordado foi “Gestão e governança dos recursos hídricos: o papel do ‘nós’ da nascente à foz”.

Os representantes da Copasa e da Prefeitura de Belo Horizonte destacaram o trabalho institucional de suas respectivas instituições. Pela Copasa, foi citado o Programa “Pró-Mananciais”, que realiza cercamento de nascentes, plantio de mudas em matas ciliares e construção de bacias de contenção de enxurradas em cerca de 60 municípios mineiros. Já o representante da PBH frisou os conceitos ambientais adotados como princípio no Programa de Recuperação Ambiental de Belo Horizonte – DRENURBS, “buscando, sempre que possível, manter os cursos d’água em leito aberto na área urbana”. Aroeira chamou a atenção dos movimentos ambientais para a existência de 200 quilômetros de córregos que ainda existem correndo em curso natural na cidade de Belo Horizonte. “A organização da sociedade é importante para evitar eventuais canalizações nesses córregos”, avisou.

O presidente do Conselho de Venda Nova valorizou a participação dos movimentos populares no sentido de garantir que os poderes públicos continuem fazendo intervenções inadequadas nos cursos d´água sem nenhum tipo de consulta aos moradores que vivem no entorno dessas fontes. Por fim, Eric Machado, buscou conciliar os pontos de vista dos movimentos ambientais e do poder público, considerando que ele próprio é coordenador do SCBH Onça e funcionário público da Prefeitura de Contagem. “Infelizmente a formação de engenheiros civis no Brasil deixa a desejar em relação aos conceitos ambientais mais atuais no mundo, de modo que na maioria dos municípios, o setor de obras prevalece sobre as medidas de proteção dos recursos hídricos. Nesse sentido, Contagem tem sido uma exceção, garantindo a equiparidade de poder entre esses dois setores da gestão municipal que devem dialogar e não competir”.

PROJETO HIDROAMBIENTAL

A partir das 19:00 foi a vez do engenheiro ambiental Guilherme Cerqueira apresentar o painel sobre o projeto hidroambiental “Elaboração de Diagnóstico das Nascentes Urbanas na Bacia Hidrográfica do Ribeirão Onça em Belo Horizonte” que está sendo executado pela NMC Projetos e Consultoria Ltda. a serviço do CBH Rio das Velhas e SCBH Ribeirão Onça com apoio técnico da Agência Peixe Vivo. O coordenador do projeto detalhou as etapas de cadastramento e diagnóstico de 600 nascentes e de mobilização e sensibilização ambiental nas regiões das bacias dos córregos Vilarinho e Isidoro e da região do Baixo Onça. Além de seminários e curso de sensibilização ambiental, o projeto previu a realização do simpósio e ainda realizará um curso para elaboração de um plano de manejo comunitário para ser aplicado por cuidadores locais nas nascentes cadastradas. O geógrafo Brenner Rodrigues mostrou os resultados das primeiras 350 nascentes cadastradas e diagnosticadas pelo projeto, que está sendo realizado com recursos arrecadados com a cobrança pelo uso da água na Bacia do Rio das Velhas.

Feira solidária e apresentações musicais

RODA DE CONVERSA E DE EXPERIÊNCIAS

Por fim, o simpósio contou com uma roda de conversa conduzida pelo mobilizador social Lucas Alves, com a participação dos convidados Itamar de Paula, do Movimento Deixem o Onça Beber Água Limpa e do Conselho Comunitário Unidos pelo Ribeiro de Abreu (Comupra); Roseli Corrêa, coordenadora do Núcleo Capão do Projeto Manuelzão; Ana Paula Cruz, representante da Rede de Apoio ao Desenvolvimento do Jardim Felicidade; Eric Machado, diretor de Planejamento Ambiental, representando o secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Prefeitura de Contagem, Wagner Donato; e Rodrigo Ádamo, representante do Programa de Recuperação e Desenvolvimento Ambiental da Bacia da Pampulha (Propam).

Os representantes das entidades apresentaram suas experiências de trabalho relacionadas à preservação de nascentes na Bacia do Ribeirão Onça: o trabalho de educação ambiental realizado com estudantes nas margens do Córrego do Capão, a montagem de uma rua de lazer próximo à nascente do Jardim Felicidade; mutirões de moradores atuando na área destinada ao Parque Ciliar do Ribeirão Onça e a execução do projeto Contagem das Nascentes. Segundo Itamar de Paula, o que a maioria dessas experiências têm em comum é o protagonismo da comunidade agindo independente do poder público e ganhando confiança e mudando o comportamento ambiental. “Não há como mudar a vida de um rio sem mudar a vida das pessoas que vivem às margens desse rio. E essas pessoas mudam ao serem capazes de decidir, por conta própria o que é melhor para elas e para o rio”, concluiu Itamar.

Érika ficou satisfeita com a qualidade do evento

CULTURA A SERVIÇO DO ONÇA

Durante o simpósio houve uma extensa programação cultural, como exposição fotográfica, feira solidária com produtos artesanais produzidos por membros da comunidade abrangida pelo projeto, e apresentações musicais. Apresentaram-se no palco instalado no hall do CAD 2, os artistas Black Pio, Talmer Rodrigues, Grupo Vocal Casa Voz e Zé Teixeira.

Para a moradora da região do Vilarinho, Érika Ferreira da Silva, a qualidade técnica do simpósio foi acima do esperado assim como a participação do público apesar do evento ser em dia de semana e durante o horário de expediente. Mais de 200 pessoas participaram do simpósio. “Atividades como essa são fundamentais para manter a integração de conhecimentos entre a parte técnica representada pela universidade e as empresas e a população que vive próxima aos cursos d’água da Bacia do Onça”, arrematou. Outro que elogiou o simpósio foi o estudante de Ciências Socioambientais Guilherme Drummond. Ele filmou a maior parte das palestras como parte de um trabalho de conclusão de concurso para a sua namorada Lina Maria Correa Mendes. “É fundamental a união de todos os setores ligados à preservação dos recursos hídricos. Essa é uma luta de todos”, finalizou.

Guilherme filmou evento para trabalho acadêmico

By | 2018-04-11T17:14:28+00:00 abril 11th, 2018|Agência Peixe Vivo, Notícias|0 Comentários

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